segunda-feira, 7 de março de 2011

Clássicos dos carnavais de todos os tempos

Foliões

Bonecos de Olinda

Luiz Bandeira

Passistas

CArlito Lima, Cidinha Madeiro e Aldemar Paiva


Maestro Nelson Ferreira

Getúlio Cavalcanti


Claudionor Germano e Aldemar Paiva

Antonio Maria

Carmem Miranda e Antonio Maria, em 1955

Aldemar Paiva

Claudionor Germano

Capiba e Nelson Ferreira

.

AI SE EU TIVESSE

frevo-canção de Capiba

Ai se eu tivesse
Quem me fizesse carinho
Não levava a vida que eu levo,
Sozinho!
Por isso
Eu vivo na rua olhando pra lua,
Sem ter neste mundo
Um lugar para poder descansar
Eu sei que viver sempre assim
É ruim,
Há muito eu espero um carinho
pra mim...
Ai se eu tivesse...

BOCA DE FORNO

frevo-canção de
Nelson Ferreira e Ziul Matos

Boca de forno, forno,
Tirando bolo, bolo
Senhor Rei mandou dizer
Vocês prestem atenção
Que será muito feliz, muito feliz,
Quem roubar meu coração!
Quem roubar meu coração
Nunca mais há de sofrer,
Tudo, tudo nele é carnaval,
carnaval até morrer!
Boca de forno, forno...
Se você não acredita
Eu não vou fazer questão
Fico, fico mesmo no Brasil
E você... vá pro Japão!

BANHO DE CONDE

frevo-de-bloco de Clídio Nigro e
Wilson Wanderley

Vou formar a turma
Pra tomar banho
na beira do mar,
Vou ficar molhado,
Eu vou dar água pelo carnaval.
Vem, Padroeiro Ficher,
Vem, acender o “painé”
Não mergulhei,
Mas me afoguei,
Banho de maré tomei...

BORBOLETA NÃO É AVE

frevo-canção de Nelson Ferreira

Borboleta não é ave,
Borboleta ave é,
Borboleta só é ave
Na cabeça da muié...
Borboleta, borboleta
De voar nunca se cansa,
Menina de perna fina
De socó tem semelhança...
Borboleta não é ave...
Borboleta quando fores
Lá pras bandas do Norte
Da coruja minha sogra
Leva o gênio de má sorte...


BOM DANADO

frevo-canção de Luiz Bandeira

Êita frevo bom danado,
Êita povo animado
Quando o frevo começa
Parece que o mundo
já vai se acabar,
Quem cai no passo
Não quer mais parar...
Adeus, meu bem, eu vou
no frevo me espalhar,
Não precisa ter cuidado
Nem tampouco me esperar,
Compre fiado
se o dinheiro não chegar,
Tome conta dos meninos
Quarta-feira eu vou voltar!

CARNAVAL DA VITÓRIA

frevo-de-bloco de Nelson Ferreira
e Sebastião Lopes

O nosso bloco é ideal
Nasceu neste carnaval...
Por isso é que estamos
A brincar e a cantar:
Vitória, vitória, vitória...
Vamos correr
As ruas da cidade
Com o ardor
Da nossa mocidade
Nestes três dias
Tão cheios de aventuras
Em que a gente esquece
Da vida as amarguras...
Cantemos, cantemos
Assim cheios de glória
O carnaval da Vitória!!!


CALA BOCA MENINO

frevo-canção de Capiba

Sempre ouvi dizer
Que numa mulher
Não se bate
Nem com uma flor,
Loura ou morena
Não importa a cor,
Não se bate
Nem com uma flor...
Já se acabou o tempo
Que a mulher só dizia então,
Xô galinha, cala a boca menino,
Ai, ai, não me dê mais não...

É DE FAZER CHORAR
frevo-canção de Luiz Bandeira

É de fazer chorar
Quando o dia amanhece
E obriga o frevo acabar,
Oh! quarta-feira ingrata,
Chega tão depressa
Só pra contrariar...
Quem é de fato um
Bom pernambucano,
Espera um ano
E se mete na brincadeira,
Esquece tudo
Quando cai no frevo,
E no melhor da festa,
Chega a quarta-feira...

EVOCAÇÃO Nº 3

frevo-de-bloco de Nelson Ferreira

Cadê Mário Melo?
Partiu para a eternidade,
Deixando na sua cidade
Um mundo de saudade sem igual!
Foliões, a nossa reverência
À sua grande ausência
Do nosso carnaval...
De braço para o alto,
Cabelos desgrenhados,
Frevando sem parar
Lá vem Mário!
Defendendo Vassourinhas,
Pão Duro, Dona Santa,
Dragões, Canindés,
Lá vem Mário!
Com ele já se abraçaram
Felinto, Pedro Salgado,
Guilherme e Fenelon...
E, no palanque
Sem fim lá do espaço,
Lá está Mário a bater palmas
Para o frevo e para o "passo"!!!


É DE AMARGAR
frevo-canção de Capiba

Eu bem sabia
Que esse amor um dia
Também tinha seu fim,
Esta vida é mesmo assim,
Não penses que estou triste
Nem que vou chorar,
Eu vou cair no frevo
Que é de amargar...
Eu já arranjei
Outra morena bonita
Anda bem vestida
Cheia de laço de fita
Gosta de mim, com toda emoção
E já se diz a dona do meu coração.
Eu bem sabia...
Minha morena
Sempre diz quando me vê
Gosto de você
Não sei como e porquê
Me faz carinho a todo momento
Porém eu tenho medo
do seu juramento...

O BOM SEBASTIÃO
frevo-de-bloco de Getúlio Cavalcanti

Quem conheceu Sebastião
De paletó na mão
E aquele seu chapéu,
Por certo está comigo crendo
Que ele está fazendo
carnaval no céu...
Maracatu de Dona Santa
Nunca mais encanta
Ele já se foi,
Cadê o seu frevar dolente?
Seu andar descrente?
Seu Bumba-meu-boi?
Adeus, adeus, adeus Emília
Eu vou pra Brasília
Ele assim falou...
Meu carnaval vai ser bacana
Com a Mariana, ele comentou...
Por fim chegou a Manuela
Ele disse é ela
Minha inspiração...
E assim cercado de carinho,
Disse adeus, sozinho,
O bom Sebastião.

OH! BELA
Frevo-canção de Capiba

Você diz que ela é bela,
Ela é bela, sim, senhor,
Porém poderia ser mais bela
Se ela tivesse meu amor, meu amor.
Bela é toda a natureza, ô bela,
Bela é tudo que é belo, ô bela,
O sorriso da criança,
O perfume de uma rosa,
O que fica na lembrança.
Belo é ver o passarinho, ô bela,
Indo em busca do seu ninho, ô bela.
Todo mundo se amando
Com amor e com carinho
Uns sorrindo outros chorando
De amor.

MADEIRA QUE CUPIM NÃO RÓI
Marcha-de-bloco de Capiba

Madeiras do Rosarinho
Vem à cidade sua fama mostrar,
E traz com seu pessoal
Seu estandarte tão original,
Não vem pra fazer barulho
Vem só dizer que, com satisfação,
Queiram ou não queiram os juízes,
O nosso bloco é de fato campeão.
E que aqui estamos
cantando esta canção,
Viemos defender a nossa tradição,
E dizer bem alto
que a injustiça dói,
Que somos madeira
De lei que o cupim não rói.

LINDA FLOR DA MADRUGADA
Frevo-canção de Capiba

Mandei fazer um buquê pra minha amada,
Mas sendo ele de bonina disfarçada
Com o brilho da estrela matutina,
Adeus, menina, linda flor da madrugada.
Tem cravo, tem rosas bonitas
E boninas disfarçadas
Mas se minha amada não quiser o buquê
Eu faço presente a você.
Mandei fazer um buquê...

O BLOCO DA VITÓRIA
Frevo-de-bloco de Nelson Ferreira

O "Bloco da Vitória" está na rua
Desde que o dia raiou...
Venha, minha gente, pro nosso cordão,
Que a hora da virada chegou!
Quando o povo decide,
Cair na frevança,
Não há quem dê jeito...
Agüenta o rojão, fica sem comer,
Mas no fim, ei!
Está tudo OK!
Neste carnaval
Quá, quá, quaá, quá!
O prazer é gargalhar...
E com bate-bate de maracujá
A nossa vitória
Vamos festejar!

MODELOS DE VERÃO
Frevo-canção de Capiba

Quanta mulher bonita
Tem aqui neste salão
Parece até desfile
De modelos de verão
Até as viuvinhas
Do artista James Dean
Vieram incorporadas
Hoje a noite está pra mim!
Eu daqui não saio,
Eu não vou embora,
Tanta mulher bonita
E minha mãe sem nora.

EVOCAÇÃO Nº 1
Frevo-de-bloco de Nelson Ferreira

Felinto, Pedro Salgado
Guilherme, Fenelon
Cadê teus blocos famosos?
Blocos das Flores, Andaluzas”
Pirilampos, Apôis Fum”
Dos carnavais saudosos?!!
Na alta madrugada o coro entoava
Do bloco a Marcha-Regresso”
Que era o sucesso dos tempos ideais
Do velho Raul Moraes.
Adeus, adeus, minha gente,
Que já cantamos bastante.
E Recife adormecia
Ficava a sonhar
Ao som da triste melodia.

FREVO DA SAUDADE
Nelson Ferreira e Aldemar Paiva

Quem tem saudade
Não está sozinho,
Tem o carinho
Da recordação...
Por isso quando estou
Mais isolado
Estou bem acompanhado
Com você no coração...
Um sorriso,
Uma frase, uma flor,
Tudo é você na imaginação...
Serpentina ou confete
carnaval de amor,
Tudo é você no coração...
Você existe como um anjo de bondade
E me acompanha
Neste Frevo de Saudade!!!
Lá, lá, lá, lá...

HINO DO ELEFANTE DE OLINDA
Clídio Nigro e Clóvis Vieira

Ao som dos clarins de Momo
O povo aclama com todo ardor,
O Elefante exaltando as suas tradições
E também seu esplendor.
Olinda, este meu canto
Foi inspirado em teu louvor,
Entre confetes, serpentinas
Venho te oferecer
com alegria o meu amor.
Olinda, quero cantar, a ti esta canção,
Teus coqueirais, o teu sol, o teu mar,
Faz vibrar meu coração de amor
a sonhar, minha Olinda sem igual,
Salve o teu carnaval!

HINO DA PITOMBEIRA
Alex Caldas

Nós somos da Pitombeira
Não brincamos muito mal,
Se a turma não saísse
Não havia carnaval
Bate-bate com doce, eu também quero,
Eu também quero, eu também quero.
A Turma da Pitombeira
Tem seis dedos em cada mão
E o P que tem na testa
Faz parte da confusão
Bate-bate com doce...
Pitombeira só tem dez letras
E uma significação
Pitomba é fruta besta
Que se compra com qualquer tostão
Bate-bate com doce...
A Turma da Pitombeira
Na cachaça é a maior,
O doce é sem igual e como ponche é ideal
Se a Turma não saísse não havia carnaval.

HINO DOS BATUTAS DE SÃO JOSÉ
Frevo-de-bloco de João Santiago

Eu quero entrar na folia, meu bem,
Você sabe lá o que é isso,
Batutas de São José
isso é parece que tem feitiço...
Batutas tem atração
Que ninguém pode resistir,
Um frevo desses que faz
Demais a gente se distinguir...
Deixa o frevo rolar,
Eu só quero saber
Se você vai ficar,
Ai meu bem sem você
Não há carnaval,
Vamos cair no passo
E a vida gozar.

VALORES DO PASSADO
Marcha-de-bloco de Edgar Moraes

Bloco das Flores, Andaluzas, Cartomantes, Camponeses,
Apôis Fum e o Bloco Um Dia Só,
Os corações futuristas, Bobos em Folia,
Pirilampos de Tejipió,
A Flor da Magnólia,
Lyra do Charminon, Sem Rival,
Jacarandá, a Madeira da Fé,
Crisântemos, Se Tem Bote,
E Um Dia de Carnaval...
Pavão Dourado, Camelo de Ouro e Dedé
Os queridos Batutas da Boa Vista,
E os Turunas de São José,
Príncipes dos Príncipes brilhou, Lira da Noite também
ficou,
E o Bloco da Saudade assim recorda,
Tudo que passou...

FREVO Nº 1
Antônio Maria

Ô, ô, ô, saudade
Saudade tão grande
Saudade que eu sinto
Do Clube das Pás, do Vassouras,
Passistas traçando tesouras
Nas ruas repletas de lá.
Batidas de bumbo,
São maracatus retardados
Chegando à cidade, cansados,
Com seus estandartes no ar
Que adianta se o Recife está longe
E a saudade é tão grande
Que eu até me embaraço.
Parece que eu vejo
Walfrido Cebola no passo,
Haroldo Fatia, Colaço,
Recife está perto de mim!

FREVO Nº 2
Frevo-canção de Antônio Maria

Ai que saudade vem do meu Recife,
Da minha gente que ficou por lá
Quando eu pensava, chorava, falava
Dizia bobagem, marcava viagem,
Mas nem resolvia se ia...
Vou me embora,
Vou me embora,
Vou me embora pra lá...
Mas tem que ser depressa
Tem que ser pra já,
Eu quero sem demora
O que ficou por lá,
Vou ver a Rua Nova,
Imperatriz, Imperador,
Vou ver, se for possível,
meu amor...

FREVO Nº 3
Antônio Maria

Sou do Recife com orgulho e com saudade
Sou do Recife com vontade de chorar,
O rio passa levando barcaça pro alto do mar,
E em mim não passa essa vontade de voltar...
Recife mandou me chamar
Capiba e Zumba essa hora onde é que estão?
Inês e Rosa em que reinado reinarão?
Ascenso me mande um cartão.
Rua antiga da Harmonia,
Da Amizade, da Saudade e da União,
São lembranças noite e dia,
Nelson Ferreira toque aquela introdução...

VOLTEI RECIFE
Frevo-canção de Luiz Bandeira

Voltei, Recife,
Foi a saudade que me trouxe pelo braço,
Quero ver novamente,
Vassoura na rua abafando
Tomar umas e outras e cair no passo.
Cadê Toureiros? Cadê Bola de Ouro?
As Pás, os Lenhadores,
O Bloco Batutas de São José?
Quero sentir a embriaguez do frevo,
Que entra na cabeça, depois toma o corpo
E acaba no pé...

VASSOURINHAS
Matias da Rocha e Joana Batista

Se essa rua fosse minha
Eu mandava ladrilhar
Com pedrinhas de brilhante
Pra Vassourinhas passar.
Somos nós os Vassourinhas
Todos nós em borbotão
Vamos varrer a cidade
Ah! isso não, ah! isso não
Ah! reparem, meus senhores,
O pai desse pessoal
Que nos faz sair às ruas
Dando viva ao carnaval!
Bem sabeis o compromisso
Que nos leva a fazer
De mostrar nossas insígnias
E a cidade se varrer.
Colaboração de Cidinha Madeiro
















Galo da Madrugada, mito e apartheid social


Homero Fonseca

Na terça-feira passada, 1º de março, os jornais do Recife publicaram um Comunicado do Clube de Máscaras O Galo da Madrugada posicionando-se no sentido de “salvaguardar direitos e obrigações inerentes ao uso da marca Galo da Madrugada”.
Assinada pelo presidente da agremiação, a nota adverte: “a utilização de suas marcas em quaisquer meios de comunicação, propagandas, festas, camarotes, eventos e afins, em quaisquer de suas modalidades, escrita, imagem, falada ou reproduzida, de forma integral ou parcial, sem a prévia e expressa autorização do seu titular, constitui violação” à Constituição e à Lei de Propriedade Industrial. Vazada em autêntico juridiquês, a nota detalha as interdições ao uso comercial da valiosa marca. A parte aspeada sugere até uma inibição ao noticiário, coisa, além de absurda, inócua e que, se lograsse êxito, seria totalmente contraproducente, pois o que seria do Galo sem a mídia?

É um documento curioso, merecedor de análise e registro por historiadores, pesquisadores e instituições de pesquisa social.

Na realidade, escancara uma realidade sabida de todos: como o futebol, a música popular e qualquer atividade que reúna grandes massas, o Carnaval é movido a dinheiro. É inescapável. Sempre foi assim, isto é, desde que o Carnaval assumiu, entre nós, as feições atuais, a partir das primeiras décadas do século passado, convivendo, essa inserção no mercado, com iniciativas basicamente lúdicas, mas integradas, afinal, ao gigantesco sistema. O que mudou é a escala e a franqueza expostas no comunicado.

[Lembremo-nos de que, desde épocas recuadas, mesmo as chamadas agremiações populares sempre dependeram de subvenções governamentais para desfilar, o que veio a determinar um crescente dirigismo dos festejos pelas instâncias estatais, substituindo o cassetete pelas verbas e induzindo por completo a formatação da festa, especialmente a partir da década de 1930. Hoje o poder público, consciente do trunfo mercadológico em mãos, vai em busca de patrocínios privados, como as grandes cervejarias, por exemplo, repassando parte da receita às agremiações. Os meios de comunicação completam o circuito, dedicando espaços mais que generosos à folia, arrecadando os tubos em publicidade. É a roda da fortuna girando a todo vapor.]

Fundado em 1978, quando exatamente 75 foliões, devidamente fantasiados de almas penadas, sacolejaram ao ritmo do frevo pelas ruas estreitas dos bairros de São José e Santo Antônio, às primeiras horas do Sábado de Zé Pereira, o clube cresceu de uma maneira vertiginosa por uma série de fatores, espontâneos ou planejados à luz das ferramentas do marketing. Era realmente uma sacudida renovadora nos festejos de rua no Recife, à época definhando pelo abusivo controle policial-militar-ideológico imposto pelo regime de 1964.

Nos anos 80, o Galo, vitaminado pela adesão constante de mais e mais foliões, já se tornara robusto e se apresentava com várias orquestras em cima de caminhões. Dois anos depois – conforme o saite do clube – “já era impossível o som das orquestras alcançarem ‘naturalmente’ a multidão” e recorreu-se à fórmula dos trios elétricos.

E aí, salvo engano, ocorreu um fato que seria fundamental para a explosão dos números: competindo por espaços nos noticiários nacionais, os setores de jornalismo da Rede Globo da Bahia e de Pernambuco fizeram um curioso leilão de público, a cada ano aumentando delirantemente o tamanho da festa no Recife e em Salvador (isto rendia mais prestígio e faturamento para as emissoras locais). Obviamente que todos se beneficiavam dessa emulação: o próprio clube, as prefeituras, o patriotismo bairrista. Então, as coisas deixaram de ser espontâneas e viraram uma jazida explorada em todos os seus filões. E, em 1991, chegou-se ao número mágico: o Galo arrastara “mais de um milhão de foliões”! Daí para chegar ao Guinness Book, em 1994, foi moleza. E a marca consolidou-se definitivamente como “o maior bloco de Carnaval do planeta” (desconfio de que, se a corrida espacial houve avançado mais, chegaríamos às raias do sistema solar).

Nada contra. Assim caminha a humanidade. Apenas creio ser necessário “contar o caso como o caso foi”.

[Um adendo: em 1996 ou 97, quando eu chefiava a redação de um jornal recifense, comecei a desconfiar do coro da Maria-vai-com-as-outras, trombeteando, como já se fazia, que o colossal desfile já ultrapassava o número de um milhão e meio de pessoas. Ora, o Recife contava com pouco mais de um milhão e duzentos mil habitantes, ou seja, tinha mais gente no Galo do que a população da cidade! Tudo bem, vem o pessoal da região metropolitana e os turistas, mas também é preciso descontar quem não gosta de Carnaval, os evangélicos, os católicos que fazem retiro, as crianças de berço, os muitos velhos, os que fogem para as praias e as serras, os doidos internados, os doentes, os presos etc. Há ainda o problema do espaço físico. Estávamos no campo dos mitos. Chamei um engenheiro e pedi-lhe para, em cima de um mapa da região por onde o clube se espraiava, e levando em conta os parâmetros para cálculo de multidões, aferir o público do desfile. Ele fez um estudo preliminar cujo resultado apontava algo como 350 mil pessoas, no máximo 400 mil (o que é gente pra caramba). A disparidade era tão grande em relação ao número mítico (menos de um terço) que resolvi suspender a pesquisa. Não valia a pena entrar em choque com o “resto do mundo” (rssss) e virar um inimigo do povo. Mas fiz uma recomendação expressa à redação: nada de falar em milhões e que tais – a cobertura seria a mesma, com o mesmo destaque de sempre, mas registrando “a grande multidão”, sem dimensionar o número exato, que aliás ninguém conhece com certeza. Ir de encontro a mitos é um pouco como combater moinhos de vento e essa não era minha prioridade.]

O que me incomoda substantivamente é o ‘apartheid social’ evidenciado no Carnaval: as multidões embaixo, como coadjuvante, e a elite nos camarotes refrigerados tietando celebridades vazias e efêmeras. Claro que desde o entrudo, povo e elite nunca se misturaram completamente na festa, apesar do seu razoável caráter democrático e da oportunidade mais ou menos consentida de inversão de papéis sociais (e até sexuais, vejam as “Virgens”). Brinquei uma vez no Galo, em fins dos anos 80, lá embaixo, no asfalto, apenas evitando o corredor polonês da Rua da Concórdia, o que exigia mais saúde e menos juízo do que eu tenho. Foi bom, mas depois se tornou impraticável. Para quem tem disposição demais, certamente continua valendo a pena.

Mas fora isso, viva o Galo! E viva também “quem é de fato bom pernambucano espera um ano e se mete na brincadeira”, como não faço mais, por comodismo, velhice chegando ou porque, morando na praia de Barra Grande, talvez eu tenha virado alagoano. Bom Carnaval para todos.

EM TEMPO (06/03/11)
Leio nos jornais que o Bola Preta, do Rio, superou o Galo, ao levar para as ruas DOIS MILHÕES de foliões. O dado basea-se numa avaliação genérica da PM do Rio (hum!). Pelos mesmos motivos que desconfio dos números mágicos do Galo, também intuo que a "superação do recorde" pelo simpático Bola Preta, num crescimento ainda mais vertiginoso e espantoso, carece de comprovação científica e tudo indicar situar-se no vaporoso terreno do marketing.

http://www.interblogs.com.br/homerofonseca/post.kmf?cod=11613719&total=286&indice=0

domingo, 6 de março de 2011

O carnaval de Lula Nogueira








Lula Nogueira (Maceió 18/9/1960) Pintor, desenhista, engenheiro.Curso secundário em Recife. Engenheiro Civil pela UFAL (1987). Especialização em Urbanismo, em Belo Horizonte, na Universidade Federal de Minas Gerais (1990) e, ainda em Belo Horizonte, faz o curso de Gravura em Metal, na Escola Guignard (1989). Estudou Desenho e Pintura no ateliê de Vânia Lima (1972/74). Curso de Técnica de Fotografia, nos Estados Unidos. Em 1980 freqüentou o ateliê de Pierre Chalita, bem como o curso de Criatividade então mantido por Maria Amélia Vieira. Sua primeira exposição individual foi em 1981, na Casa Museu do Marechal Deodoro, na cidade do mesmo nome. Ainda nesse ano inaugurou-se, com uma mostra sua, a Galeria Grafitti.
http://www.abcdasalagoas.com.br/public_html/

"Escrever é a melhor maneira de pensar. Quando escrevemos, o pensamento perde a arrogância e se deixa guiar pelo que desconhece. Escrever, portanto, é pensar no escuro."

José Castello



José Castello


Nasceu no Rio de Janeiro, em 1951. Graduou-se em Teoria da Comunicação, na Escola de Comunicação da UFRJ e depois, na mesma escola, em Jornalismo. É mestre em Comunicação pela mesma UFRJ. Foi repórter de Veja, redator do semanário Opinião, chefe da sucursal carioca de IstoÉ e editor dos suplementos Idéias/Livros e Idéias/Ensaios, ambos do Jornal do Brasil. Desde 1993, faz parte da equipe de cronistas do Caderno 2 de O Estado de S. Paulo. Colabora para o mesmo jornal como repórter literário do Caderno 2. É colaborador de Bravo! e IstoÉ. Participou da equipe que pesquisou, para a Companhia das Letras, o acervo de Vinícius de Moraes, guardado na Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio. Organizou e escreveu textos complementares do Livro de Letras, reunião das letras de música escritas por Vinícius, e do Roteiro Lírico e Sentimental do Rio de Janeiro, inédito incompleto deixado por Vinícius, ambos publicados pela Companhia das Letras. Desde 1994, vive em Curitiba.

sábado, 5 de março de 2011

Heitor Villa Lobos, parabéns.

Heitor Villa Lobos na sinuca

Villa no piano


Regendo


5/3/1887 Rio de Janeiro, RJ
17/11/1959 Rio de Janeiro, RJ

Compositor. Maestro. Violoncelista.

Filho de Raul Villa-Lobos, músico amador e autor de livros didáticos, e Noêmia Umbelina Santos Monteiro. Nasceu numa casa na rua Ipiranga, em Laranjeiras, no Rio de Janeiro e teve sete irmãos. Seu avô materno foi boêmio e gostava de freqüentar festas na companhia de músicos populares. Segundo C. Paula Barros, o avô (Santos Monteiro) chegou a compor uma quadrilha, intitulada "Quadrilha das Moças". Na infância, Villa-Lobos era tratado pelo apelido de Tuhu.

No ano da morte de seu pai, em 1899, escreve, aos 12 anos, a cançoneta "Os sedutores". Aos 16 anos, morando então com uma tia, começa a travar contato com os chorões, como se chamavam os músicos que tocavam choro (ou chorinho). Tornou-se companheiro de Eduardo das Neves, Ernesto Nazareth, Anacleto de Medeiros e Catulo da Paixão Cearense. O interesse pelo choro faria com que desenvolvesse uma significativa parte de sua obra valorizando o violão.

Em 1905, faz sua primeira viagem ao Nordeste e recolhe canções folclóricas. Torna-se aluno, no Rio de Janeiro, de Francisco Braga, Frederico Nascimento e Agnello França. Em 1910 é contratado como violoncelista de uma companhia de operetas e começa a compor mais intensamente. Três anos depois casa-se com a pianista Lucilia Guimarães. Em 1915, acontece a primeira audição pública de suas obras, em Friburgo, no Estado do Rio de Janeiro.

Em 1922, participa, no Teatro Municipal de São Paulo, da Semana de Arte Moderna, ao lado dos modernistas Mário e Oswald de Andrade. Em 1936, separa-se de Lucília para casar-se com Arminda Neves de Almeida, a Mindinha, com quem viveria até a morte, após uma carreira de sucesso no Brasil e no exterior. Dois anos antes de seu falecimento em decorrência de um tumor maligno, seus 70 anos de idade foram saudados num editorial no The New York Times. É geralmente considerado o maior compositor do Brasil, do ponto de vista internacional.

Fonte:

http://www.dicionariompb.com.br/villa-lobos/biografia.

Bibliografia Crítica

• Villa-Lobos, sua obra, MEC/DAC/Museu Villa-Lobos, Rio de Janeiro, 1971.
• "Villa-Lobos, uma introdução", Luiz Paulo Horta, Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 1987.
• Heitor Villa-Lobos, compositor brasileiro. Vasco Mariz. Ed. Itatiaia, Belo Horizonte, 1989.

sexta-feira, 4 de março de 2011

O pão e o divertimento



Por Leandro Konder

Na época atual, a política se tornou um território delicado.
Ninguém faz política sozinho. Os sujeitos que decidem intervir na história sabem que o impulso histórico de mudar o mundo depende de muita luta de sofrido processo de desenvolvimento, de análises e intuições e também de convicções.

Mesmo os antigos ditadores que marcaram a época no início do século 20 – tipo Hitler ou Mussolini – cultivavam o apoio das mesmas massas que eles tratavam com aspereza retórica e reprimiam, enchendo as cadeias de seus países.

Mais modernamente, esses ditadores e seus assessores têm diminuído o recurso à brutalidade assumida e oferecem a seus seguidores discursos mais sofisticados, flertando com o liberalismo. Agora mesmo nossos jornais estão cheios de notícias que se constroem em torno de uma aguda percepção de que os ideais políticos libertários podem ser proclamados sem que sejam realizados.

Quando vemos recentemente no norte da África manifestações da profunda mistificação efetivada por diversos Estados, podemos sempre nos apoiar em uma metodologia não corrompida e enxergar a mentira com que o Ocidente saudava o discurso liberal e reprimia a esquerda nesses países. Mubarak e seus congêneres não se tornaram antidemocratas de uma hora para outra. Há muitos anos eles já eram de direita.

É constrangedor para nós a imagem de um movimento social de inspiração mulçumana e cristã e notar que a amplitude dessa mobilização não corresponde às verdadeiras lideranças, capazes de encaminhar choques e definir os limites dos acordos.

Os antigos romanos influenciaram muita gente com ideias pragmáticas e truculentas, que convenciam as pessoas de que os movimentos sociais derivavam das necessidades econômicas e do vazio político.

Se essa ideia fosse correta, a massa trabalhadora, ao sair de casa para enfrentar a dureza do trabalho, ilustraria o pensamento conservador e as imagens que ele difundia: a maneira de aquietar a multidão seria dada por duas esmolas típicas do império romano, isto é, panis et circenses (comida e divertimento).

Um senador romano tradicional acrescentou a essa expressão cínica uma observação sarcástica: “se a situação for perigosa para nossas conveniências políticas, podemos reduzir o panis e eliminar o circenses.

Na época atual, a política se tornou um território delicado. Seus teóricos ensinam que debates e controvérsias devem ser evitados quando questionam valores que estão, por assim dizer, no núcleo da democracia. O resultado desse movimento é a proliferação de questões teóricas pouco importantes e o quase abandono das questões cruciais da história dos ideais democráticos.

Na democracia, aparece com nitidez a chamada questão social. O compromisso democrático vincula o projeto de uma nova sociedade tanto à criação de novas bases sociais como à defesa das liberdades.

A democracia, como sabemos, se baseia em um movimento teórico e prático que repele o programa político liberal, a partir do momento em que o liberalismo se mostra insensível às frustrações da classe trabalhadora.

Nas circunstâncias atuais, para o bem ou para o mal, a derrota histórica do socialismo trouxe como consequência a exclusão da sofisticação com que os socialistas atuavam politicamente em ligação com as preocupações liberais. Os liberais, por sua vez, chegaram a dispensar, como interlocutora, a perspectiva dos democratas e dos socialistas.

Uma das razões pelas quais podemos prever que as próximas décadas, no Brasil, serão tumultuadas, talvez venham a ser compreendidas e trabalhadas pelos nossos sucessores. Esperamos que eles, ao avançar, tragam os conhecimentos científicos que, ao mesmo tempo, nos ajudam e nos frustram.
Leandro Konder, é filósofo.

*Publicado originalmente na edição 417 do Brasil de Fato - http://www.brasildefato.com.br/node/5771.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Como dizia o poeta

Carlito Lima , Geraldo de Majella e Cidinha Madeiro

Carlito Lima e Anilda Leão no salão nobre da Academia Alagoana de Letras

Carlito Lima


De: Vinicius de Moraes e Toquinho

Quem já passou por essa vida e não viveu
Pode ser mais, mas sabe menos do que eu
Porque a vida só se dá pra quem se deu
Pra quem amou, pra quem chorou, pra quem sofreu
Ah, quem nunca curtiu uma paixão nunca vai ter nada, não
Não há mal pior do que a descrença
Mesmo o amor que não compensa é melhor que a solidão
Abre os teus braços, meu irmão, deixa cair
Pra que somar se a gente pode dividir
Eu francamente já não quero nem saber
De quem não vai porque tem medo de sofrer
Ai de quem não rasga o coração, esse não vai ter perdão
Quem nunca curtiu uma paixão, nunca vai ter nada, não.
Carlito Lima, escritor, engenheiro civil e militar(reformado), membro da Academia Alagoana de Letras, completa hoje 71 anos. Parabéns, Capita.