Liêdo em foto de Cida Machado,
2010
POR XICO SÁ
14/05/14
E lá se foi
o escritor e, de longe, o maior pesquisador da sacanagem popular brasileira, o
velho safado Liêdo Maranhão, 88, que morreu nesta manhã no Recife, vítima de
parada cardíaca -hospitalizado havia três meses, resistira a um AVC e a uma
queda que lascou seu fêmur.
Quando soube
da notícia, a primeira imagem que me veio foi a de Liêdo recitando Baudelaire,
em francês, para a rafameia do Recife. Dizia na língua do poeta e traduzia na
sequência, verso a verso, para os feios, sujos e malvados.
Dentista sem
dente, como tratava da sua formação profissional, Liêdo, nosso guru da Praça do
Sebo e da cachaça nos derredores do Mercado de São José, deixou livros,
diários, pesquisas e um grande museu de objetos e folhetos sobre tudo que é
safadeza e fuleragem do Brasil.
De comida de
pobre, receitas para tempos de guerra -vide o mingau de cachorro- às aventuras
na zona portuária do Recife, a opening city dos mariners, como era chamada
pelos gringos.
Folclorista,
antropólogo autodidata da poeira (povão no Recife), apanhador de costumes… De
um tudo Liêdo era chamado nas ruas e na imprensa. Talvez o que mais gostasse,
porém, fosse o tratamento recebido nos bares do Mercado de São José:
bucetólogo. De tanto estudar os órgãos sexuais na visão da massa, mereceu a
galhardia.
Futebol,
sexo e religião -com mais sexo que os outros dois itens- formavam a santíssima
trindade das investigações nada teóricas do mestre.
Liêdo estava
para o Recife/Olinda como Joe Gould para Nova York. Lembro dessa comparação da
jornalista Silvia Bessa em texto exemplar na revista Continuum (Itaú Cultural).
A diferença
é que, com sua coleção de pesquisas e diários, Liêdo concretizou o sonho que o
americano não conseguiu realizar, lembrou Silvia.
Conhecido boêmio da NY dos anos 1930 e 1940, Joe foi personagem do livro “O Segredo de Joe Gould”, de Joseph Mitchell (Companhia das Letras).
Conhecido boêmio da NY dos anos 1930 e 1940, Joe foi personagem do livro “O Segredo de Joe Gould”, de Joseph Mitchell (Companhia das Letras).
A utopia do
boêmio e sem-teto Joe, no seu mergulho no submundo das ruas, era chegar ao que
chamava de “a maior e mais importante história oral da humanidade”.
Liêdo deixa
essa saga que o velho Joe tentou lindamente construir.
Para findar
a louvação, um caso real de Liêdo Maranhão narrado a este cronista por Moema
Cavalcanti -sim, a autora das capas de livros mais bonitas do país.
Liêdo,
tarado por carnaval, aceitou um trato com a mulher, uma valente espanhola: não
iria, pela primeira vez na vida, se esbaldar na sacanagem momesca. Tudo certo.
Por um milagre, ele conseguiu cumprir a promessa.
Na Quarta de
Cinzas, foi cobrar a recompensa. No que a mulher, braba que nem siri na lata,
se esquivara. Revoltado, Liêdo bradou:
“Olhe, só
existem duas coisas na vida com as quais não se brinca de jeito nenhum: cu e
arma de fogo!”
A esposa
havia prometido, obviamente, um prêmio em sexo anal pelo bom comportamento do
marido no período carnavalesco. Desde então a frase “com cu e arma de fogo não
se brinca” é um clássico popular no Nordeste.
Que a terra
lhe seja leve, meu queridíssimo Liêdo.
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